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A cultura tem casa?


O ano? 1991. O dia? Não lembro ao certo. Sei que era uma tarde ensolarada, o ônibus cheio... Sim, até aí nada de novidade, certo? Errado. O ônibus estava cheio, sim. Abarrotado de alegria, curiosidade, ansiedade e orgulho. Seguramente, o motorista e o cobrador daquele coletivo, assim como eu, não esqueceram esse dia. Qual era o acontecimento? A primeira visita à Casa da Cultura da cidade. Onde? Em Passos, minha terrinha natal, lá no sul de Minas Gerais.


O entusiasmo tomou conta dos mais de trinta alunos da segunda série do primário, hoje em dia, o segundo ano do ensino fundamental. Era a primeira vez que a turma andava de ônibus sem a supervisão dos pais, acompanhados exclusivamente pela professora Alice e uma ajudante da escola. Uma sensação de aventura, independência e descoberta. Um momento único, compartilhado com os melhores amigos do mundo, os amigos da infância.


Quando cheguei à Casa da Cultura, ainda me lembro do frio na barriga e da minha boca aberta. Que cheiro bom tinha aquela casa! Dois andares, essa tal da Cultura era mesmo sortuda! Nunca havia visto tantos livros, jornais, revistas, quadros...


As bibliotecárias falavam baixinho, explicaram tudinho e fizeram as carteirinhas de todos os alunos. Entre tantas estantes, autores e desenhos, cada um ESCOLHEU dois livros. Quinze dias depois, ocorreria a devolução, uma nova escolha ou a renovação. Deu-se o início a uma nova era.


O que mais aconteceu nesse dia? O sentido do silêncio, a magia da pesquisa, filme com os amigos, sorvete e contação de histórias. Sim, essa mágica tarde ficou na memória! Ali, descobri que a Casa da Cultura não era só da dona Cultura, não era só minha, era de e para todos. Todas as idades, as classes, os credos...


Não sei se era segunda, terça... Enfim, isso nem importa. Extraordinário foi o que vi e apreendi. De uma forma singela, doce e magistral, a professora Alice semeou a paixão pela descoberta. Apresentou a sua turminha de curiosos a tão ilustre e ACESSÍVEL cultura.


Hoje, sei que a cultura não mora somente em uma casa, na verdade ela possui uma infinidade de lares – dos corações ao concreto – algo impossível de mensurar. Ah, caso ache que ela pertença a poucos senhores, relaxe! Mesmo que alguns sejam egoístas e não tenham aprendido a partilhar, a cultura não está presa aos individualistas. Acredite! De uma maneira ou outra, vocês vão se encontrar.


Entendo que o cultivo da cultura só possa florir por meio da DESCOBERTA. Como? Que tal remover os preconceitos, compartilhar e dar espaço ao novo?! Apresentar e cultivar, receita simples da professora Alice. Semente que me abriu portas e janelas para os encantos da cultura.


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